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Pela
altura de 1883 instalam-se suntuosamente numa amplíssima casa em
Laranjeiras, de que deixaram pomposas descrições. Carlos von
Koseritz e Vicente Quesada, e onde reuniam, nos últimos anos da
Monarquia e primeiros da República, a sociedade do Rio de Janeiro em
recepções e bailes inesquecíveis.
Adquire ou consolida, Haritoff, o
domínio da fazenda Bela Aliança, onde, havia 16 anos, se casara,
ornando ali sua residência de campo com luxo e bom gosto.
Passos Maia - que a visitou e
conheceu quando Haritoff já viúvo - descreve no livro "Guapé" a
riqueza de Bela Aliança: "solar encantado onde o menor desejo era
satisfeito"; com seus salões, tapêtes, veludos e brocados, a sala de
armas, a de bilhar, os quartos dos hóspedes e mais as cavalariças, o
jardim fronteiro, o pomar ao fundo...
Um dos visitantes dessa fazenda
foi em janeiro de 1887 o Grão Duque Alexandre da Rússia, da casa
reinante, sobrinho do Czar, com cuja filha Xênia, veio a casar-se.
Alexandre muito moço ainda, no
verdor dos seus vinte e um anos, viajava à volta do mundo no "Rynda",
navio da armada moscovita.

Detalhe da arquitetura do casarão de Bela Aliança.
Não faltam a seu livro "Era uma vez
um Grão Duque", de 1931, uma terna delicadeza romântica, a lembrar
as maneiras de sentir e redigir de Maximiliano da 'Áustria, e grande
simpatia por coisas, pessoas e sítios que viu e visitou.
Do Rio de Janeiro guardou ele tão
grata recordação que escreveu: "quem bebe da água de Beykos voltará
sem falta a Istambul - dizem os turcos. Tenho minhas dúvidas. Bebi-a
e não sinto o mais leve desejo de rever aquela cidade... Entretanto,
daria tudo, para ainda uma vez voltar a comtemplar a maravilhosa
beleza do Rio".
Era a fascinação da baía, comparada
à de Sidney, às de São Francisco e Vancouver; seria ainda a
lembrança de uma adolescente a dançar à melodia da "Paloma", na
fazenda de seu compatriota.
Poucos dias antes, da noite de
Natal de 1886, Alexandre cismava na ponte de comando na hora do
"quarto de modorra". Há uma exalação de oriente na calma
comtemplação da natureza e na serena expressão de seus sentimentos
de ausente, que não chegam à tristeza de nossa saudade: "Noite de
Natal de 1886. O S.K.M.S. "Rynda" margeia ora em meio ao nevoeiro,
ora debaixo de chuva o litoral brasileiro. Contemplo a ponte de
comando o Cruzeiro do Sul a brilhar entre nuvens esbranquiçadas.
Respiro a plenos pulmões a atmosfera das florestas tropicais.
"O sino de bordo dá quatro horas e
marca o fim do "quarto". Embaixo, no salão, aguarda-me uma ceia fria
e uma garrafinha de Wodka gelada. Ouço o crepitar da lâmpada de
petróleo e o passo ritmado do oficial de quarto. Depois - completo
silêncio de um navio de guerra antes do amanhecer.
Pinta um quadro de poucas
pinceladas evocativas: a distância, a noite, a noite de Natal,
aquele silêncio; imaginado e embevecido retornar ao que há de mais
longíquo e querido e desejado: "um russo onde quer que esteja não
esquece a família, os palácios, e as igrejas, os soldados em marcha,
os cossacos ao galope, e a beleza alva e rosada das jovens. Vejo a
ponta de um envelope fora de meu bolso, dentro desse envelope um
cartãozito - "Os melhores votos de pronto retorno! Sua Xênia".
Vem-me aos lábios um sorriso. Ela é tão meiga -..."
A amada lá ficara a milhares de
milhas,em São Petersburgo. "Ela é tão meiga!... Quem sabe - um dia?
Se o Czar não se importasse que sua filha esposasse um rapaz como
eu?! Também Xênia ainda não completou doze anos. Temos ambos tanto
tempo diante nós!"
Alexandre apenas começara uma
viagem de três anos, como subtenente. Tudo viria seu tempo, a
promoção, as honrarias, o amor de Xênia, sua esposa. Por agora era
cismara assim no futuro russo uma noite; e noutra beber os olhos de
uma brasileirinha o encanto mais forte que o da água de Beykos,
feitiço que o faria tanto tempo depois querer voltar ao Brasil
remoto, onde a vira dançar ao som da Paloma.
Foi em Bela Aliança - cinco dias
numa fazenda dos trópicos entre plantações dos Haritoffs: - "Todas
as manhãs saíamos montados a ver os campos e cafezais que se
estendiam por uma área de muitos quilômetros. Uma orquestra
improvisada, de escravos, tocava instrumentos curiosos para nos
entreter.
À tarde, depois do jantar
deixávamo-nos ficar na varanda, a ouvir o ruído ritmado dos tantãs.
Vinha a noite. Não acendíamos as lâmpadas. Os pirilampos, aos
milhares, nos davam bastante claridade".
Nem o nobre compatriota que o
hospedava, nem Madame Haritoff com suas gentilezas lhe marcaram na
memória a mais viva lembrança pessoal daqueles dias; mas as
sobrinhas, as duas sobrinhas de Dona Nicota, "jovens, altas,
esbeltas, de cabelos negros e pés pequenos - lindas".
Formosas realmente? ou assim as
vira, aos influxos do ambiente com seus peregrinos sortilégios? "mas
que rapariga, a dançar num jardim tropical iluminado de pirilampos,
ao som de "La Paloma", tangida na guitarra, pareceria menos que
linda a um jovem apenas chegado das geladas regiões de São
Petersburgo?"
Fazia-o esquecer brumas e neves da
pátria e sua Xênia rosada a atração sutil de uns olhos brasileiros,
na meia obscuridade das varandas da fazenda, ao hálito dos cafezais:
"lembro-me especialmente da mais velha, em que talvez eu despertasse
algum sentimento. Ou ela desejara tão só ser amável com um Gão Duque
russo que visitava seu país? Um pequeno romance da juventude. Se
ainda vive, recordar-se-á de nossas noites de janeiro de 1887, com
esta mesma grata impressão com que as memoro?"
Quem hoje, nas ruínas daquela casa,
fôr à noite para cismar de um passado de muito mais de meio século,
parecerá entrever em meio às cintilações dos vaga-lumes, dois pares
d olhos que se fitam com ternura. E com a melancolia do
irremediável, entretecido de tantas tragédias, murmurará comovido -
"Era uma vez um Grão Duque..."
Extraído de Salões
e Damas do Segundo Reinado - Wanderley Pinho
Genealogia do Grão-duque da
Rússia:
Alexandre, grão-duque da Rússia
* 13.04.1866 + 26.02.1933
Pais
Pai: Miguel, grão-duque da Rússia * 1832
Mãe: Cecília, princesa de Baden * 1839
Casamentos: 1894
Com: Xénia, grã-duquesa da Rússia * 1875
* 06.04.1875 + 20.04.1960
Pais
Pai: Alexandre III, imperador da Rússia * 1845
Mãe: Dagmar, princesa da Dinamarca * 1847
Filhos
• Irene, grã-duquesa da Rússia * 1895 cc Félix, príncipe Yusupov
• André, grão-duque da Rússia * 1897 cc I Elisabetta Ruffo cc II
Nadine Mac Dougall
• Feodor, grão-duque da Rússia * 1898 cc Irina, princesa Paley
• Nikita, grão-duque da Rússia * 1900 cc Maria, condessa
Worontzoff-Dachkoff
• Dimitri, grão-duque da Rússia * 1901 cc I Marina, condessa
Golenistchev-Kutuzov cc II Sheila Chisholm
• Rostislav, grão-duque da Rússia * 1902 cc I Alexandra, princesa
Galitzine cc II Alice Baker cc III Heduvige von Chappuis
• Vassili, grão-duque da Rússia * 1907 cc Natália, princesa
Galitzine.
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